Vestígios africanos e indígenas na história de Vitória de Santo Antão

obejtos afro-indígenas no instituto histórico e geográfico em Vitória de Santo Antão
Entenda como Vitória de Santo Antão possui influências africana e indígena em sua história e veja como chegar ao Instituto Histórico e Geográfico onde parte dessa memória é preservada.

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Entenda como Vitória de Santo Antão possui influências africana e indígena em sua história e veja como chegar ao Instituto Histórico e Geográfico aonde parte dessa memória é preservada.

Leia nessa matéria:

  • Entrevista com mestra em História pela UFRPE sobre influências afro-indígenas na história de Vitória de Santo Antão;
  • Práticas de preservação da memória afro-indígena em sala de aula com a professora Manuh – Graduanda em História na UFRPE.
  • Conversa com equipe do Instituto Histórico sobre preservação desse patrimônio;
  • O que é educação decolonial?
  • Plano Nacional de Educação Escolar Indígena;

 

Mestre em História na Universidade Federal Rural de Pernambuco comenta sobre a história de Vitória de Santo Antão

Mestre em História pela UFRPE comenta influências africana e indígena na cidade

  • Considerando a história de formação da cidade, podemos dizer que houve uma participação significativa de povos africanos e descendentes em terras antonenses?

Resposta: As terras “antonenses” são territórios afro-indígena, pois no período anterior à formação da cidade a região entre os rios Ipojuca e Capibaribe eram habitadas por povoações originárias.

Existem indicações de que a povoação de Santo Antão foi um aldeamento sob a administração de Diogo de Braga; Porém, entendemos que em algum momento desse percurso histórico a mão de obra escravizada da África foi requerida.

Pois não conseguimos supor que os próprios senhores de engenho (ou suas madames sinhás) tenham feito os trabalhos próprios para a construção de uma cidade.

Para que os esgotos fossem encanados, os matos cortados e a comida plantada, a branquitude colonial (tanto ricos quanto pobres) utilizaram mão de obra escravizada, inclusive até como artigo de luxo. E, claro, também contaram com a exploração dos colonos (indígenas e mestiços).

Realizou sua graduação em Licenciatura plena em História pela Universidade de Pernambuco e se especializou em Gênero e Sexualidade pela Faculdade Unyleya (DF). Atualmente está lecionando na educação básica.

  • De que forma se deu a vinda de povos africanos para Vitória de Santo Antão?
Artigos expostos no Instituto Histórico e Geográfico em Vitória de Santo Antão

Resposta: Através da prática da escravização, submissão, tortura e exploração de diferentes formas dos corpos
africanos. Primeiro eram sequestrados na África, depois encaixotadas em porões de navios, passavam meses e
enfrentavam grandes problemas no caminho.

Nos portos eram vendidos para diferentes pessoas, que viviam nas partes próximas do porto onde existiu a Vila do Recife e de Olinda, ou, também, pessoas que viajavam pelos sertões.

Assim como colonos que possuíam vilas mais distantes, como foi o caso da Vila de Santo Antão. Muitos africanos, ou descendentes, fugiam e formavam mocambos ou quilombos nas brenhas das matas. E vamos mais fundo nesse conteúdo, continue lendo.

  • Existe algum material com o qual você entrou em contato que tenha subvertido sua percepção sobre a história da cidade? Quais foram os materiais e qual visão ele te despertou?
Artigos encontram-se expostos no Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão

Resposta: Existem muitos pesquisadores atualmente estudando sobre a história colonial de Pernambuco e do Brasil, por vezes, a região que conhecemos como Santo Antão, ou As tabocas, é mencionada em alguns trabalhos.

Mas, vejo que na minha área de pesquisa, por exemplo, (História Social da Cultura Regional) no mestrado, a região também pode ser percebida através da história dos jornais pernambucanos.

(pois Vitória produzia muito material na impressa), através da história do carnaval e das festas e manifestações populares, através da História da religião e a compreensão do contato da Igreja com a colônia.

A história das prisões também é um campo fértil… Enfim, afrodescendentes não se resumem a “negros”, então, é possível estudar nossas histórias por diferentes perspectivas.

  • Como você enxerga a questão da preservação da memória histórica de Vitória de Santo Antão? Ao seu ver, quais atitudes ideais poderiam ser tomadas para melhorar o acesso da população a essas memórias que devem ser acessadas e, além disso, distribuídas aos cidadãos.

Respostas: Nossas memórias pretas-indígenas são reféns da hegemonia branca que se reflete nas camadas políticas,
midiáticas, religiosas e intelectuais.

É necessário que nossa juventude se questione sobre as suas origens e
busque união nas movimentações culturais, para que a gente consiga fazer espaços nossos de fala e escuta.

A “batalha da grade” é um exemplo de política preta e popular que tem acontecido através da iniciativa da juventude. Mas é evidente que iniciativas como esta em que você me entrevista, para falar enquanto historiadora, é importante.

Precisamos que as pessoas brancas historicamente privilegiadas cedam espaços de poder para nós e trabalhem conosco (nos bastidores).

Enquanto isso não acontece, seguiremos trabalhando e compactuando com o poder nas mãos de uma
aliança branca estruturada e ideologicamente unida.

Educação decolonial. Já ouviu falar?

Para aprofundar esse tema, a professora de Filosofia traz uma explicação interessante sobre o assunto. Ela diz que o pensamento decolonial é um conjunto de categorias significativas e de categorias analíticas, cuja função é fazer uma crítica ao modelo colonial e ao modelo moderno colonial.

Também explica que esse conceito não restringe a interpretação e crítica, pois ele pode ser abordado em intervenções e diversas possibilidades de atividades práticas.

A expressão decolonialidade tem a seguinte explicação: “sentido contrário do ato de colonizar”. Para ficar ainda mais esclarecido, veja como isso pode ser aplicado na prática.

Vamos supor que a história do Brasil esteja sendo estudado em sala de aula. Nesse sentido, quando o professor desconstrói a ideia de “descobrimento” e faz isso respeitando a trajetória dos povos originários que já habitavam o Brasil acontece o que chamamos de educação decolonial.

Seguindo essa mesma linha de pensamento, quando escrevemos essa que vocês está lendo, nossa ideia de entender a participação significativa dos povos africanos e indígenas na história de Vitória de Santo Antão foi norteada, também, por um pensamento decolonial.

professora de História Emanuelly comenta sobre influências africanas e indígenas na história de vitória de santo antão

Educação do empoderamento histórico

Quem pode nos mostrar esse conceito aplicado na prática é a professora Emanuelly Silva que tem 23 anos e é graduanda em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Atualmente ela estuda e pesquisa educação das relações étnico-raciais numa perspectiva antiracista.

A professora trabalha no sistema público de educação em escola municipal e faz uso de uma abordagem decolonial afim de despertar nos estudantes um sentimento de admiração pelas origens africanas e indígenas, dessa forma, espera que eles sintam interesse em pesquisar mais sobre o assunto.

Primeiro cria-se uma autoestima dos estudantes que se identificam com as origens discutidas em aula e até provoca na turma um engajamento com o assunto.

Emanuelly conta para nós, quais ideias práticas tem trazido resultados proveitosos dos estudantes sobre os assuntos abordados.

  • Como você tem lidado com a necessidade que temos enquanto Estado de preservar a memória afro-brasileira em nosso país, estado e cidade?

Resposta: Tem que começar pela autoestima. Mostrando aos alunos pretos que o nosso cabelo é bonito, que nossa pele é bonita, que nossos traços são admiráveis.

A partir disso você desperta no estudante o sentimento de admiração de si. Acredito que reconhecemos o outro a partir de uma percepção de nós mesmos.

Então, desde as minhas primeiras aulas, tive esse pensamento de usar materiais como textos, músicas e outros gêneros de produção afro brasileiros pra que meus alunos percebessem a beleza e importância de se reconhecer.

Eu resgato a dignidade dos meus estudantes através do conhecimento.

A professora de História finaliza suas considerações com uma declaração que desperta a curiosidade dela. “Quando a gente vai falar de África, nunca sabemos o que vamos escutar, porque é uma temática pouco explorada nas escolas”. Finaliza a professora.

Além disso, é preciso que atitudes como essas sejam incentivadas pela Prefeitura da cidade para que tenhamos cada vez mais acesso à memórias importantes que ajudam na construção de uma identidade.

Educação escolar indígena em São Paulo

Plano Nacional de Educação Escolar Indígena

O Brasil tomou uma iniciativa interessante quanto à preservação da cultura indígena. Se você ainda não ouviu falar no Plano Nacional de Educação Escolar Indígena, continue lendo para conhecer essa ação tão positiva para a cultura brasileira.

O plano foi criado na intenção de “implementar as propostas deliberadas na II Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena (CONEEI); fortalecer o regime de colaboração entre os entes federados, a participação social, a transparência das ações e a gestão por resultados, constituindo-se em instrumento de monitoramento, avaliação e controle social da EEI”.

Como funciona na prática? Bom, alguns objetivos e metas foram estabelecidos pelo Governo para que a população indígena fosse impactada de forma positiva pela iniciativa.

Afinal, algumas comunidades de povos originários nasceram e cresceram falando uma língua própria e, além disso, tem suas rotinas baseadas em uma experiência particular da tribo.

Essas características precisam ser preservadas, uma vez que são legítimas. A educação escolar necessita observar o contexto dos estudantes e, assim, realizar uma educação plural.

Pensando nisso, os objetivos e metas apresentados no documento do Plano se preocupam com uma série de pontos importantes no que diz respeito às aulas dadas a essa comunidade.

Vamos destacar alguns principais pontos que servem de norte para a realização dessas aulas:

  • Organizar a EEI com a participação dos povos indígenas, observada sua territorialidade e respeitando suas necessidades e especificidades;

A participação do próprio povo originário na construção do desse Plano de Educação Escolar Indígena é essencial uma vez que os próprios têm a experiência do cotidiano.

  • Fortalecer as práticas socioculturais e da língua materna de cada comunidade indígena;

A língua é um instrumento vivo e, dessa forma, podemos olhar para ela como algo plural e complementar. Ao mesmo tempo que usamos a norma culta e padrão, podemos também, valorizar àquelas que são naturais de tribos.

E até mesmo legitimar a pluralidade de variações linguísticas presentes no português brasileiro. Pois, a língua correta é aquela que comunica o que se quer dizer. Lembrando de adaptar o uso a cada tipo de necessidade e situações.

Objetos africanos no Instituto Histórico e Geográfico da Vitória de Santo Antão

Instituto Histórico e Geográfico da Vitória de Santo Antão

É nesse lugar que boa parte da memória de Vitória de Santo Antão se faz presente. Alguns objetos contam detalhes importantes da construção da cidade, de como era o comportamento dos cidadãos na época entre outras memórias que devem ser preservadas.

Procuramos a equipe do Instituto para entender como essas obras em exposição chegaram até aqui e também quais tipos de ação estão sendo realizadas para democratizar o acesso da comunidade ao espaço.

A equipe nos informou que as peças expostas no instituto chegam até lá por meio de aquisições e, principalmente, doações. Algumas vezes vem de famílias que resolvem doar para o Instituto e as peças são preservadas e expostas ao público.

Ele continua dizendo que os artigos de contexto afrodescendente tem parte que veio até o Instituto por meio de aquisição, mas que, em geral, são por doações que elas chegam até aqui.

Todos esses artigos que vocês estão vendo nas fotos poderão ser vistos presencialmente no Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão. Ele fica localizado na R. Imperial, 187 – Matriz, Vitória de Santo Antão – PE, 55602-100

Preste atenção no horário de visitação:

  • sexta-feira 08:00–12:00, 14:00–17:00
  • sábado 11:00–17:00
  • domingo 11:00–17:00
  • segunda-feira Encerrado
  • terça-feira 08:00–12:00
  • quarta-feira 08:00–12:00
  • quinta-feira 08:00–12:00, 14:00–17:00

Veja mais vestígios do acervo afro-indígena presente no Instituto:

As evidências africanas e indígenas na história de Vitória de Santo Antão ainda precisam ser mais exploradas e preservadas. Ações e profissionais como esses que trouxemos em nossa matéria são essenciais para a continuação dessa memória. Visitem o Instituto Histórico e Geográfico em nossa cidade.

ASCOM

ASCOM

Assessoria de comunicação do Vereador de Vitória de Santo Antão, André Carvalho.

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